Folha Oeste




Movimento de classe média contra Evo Morales chega rachado às eleições de domingo

15/10/2020

Movimento da população mais economicamente acomodada que impulsionou a derrubada do ex-presidente se divide entre partidários de Carlos Mesa e do ultraconservador Fernando Camacho. São conhecidos coloquialmente como pititas. São as centenas de milhares de manifestantes e ativistas digitais que há um ano paralisaram a Bolívia durante 21 dias e se atribuem a derrubada do ex-presidente Evo Morales em novembro de 2019. Esse movimento chega às eleições de domingo dividido entre duas opções: Carlos Mesa, que tem mais possibilidades eleitorais em relação ao seu grande adversário, o Movimento para o Socialismo (MAS) de Morales, e Luis Fernando Camacho, dirigente ultraconservador que liderou os protestos de rua contra o então presidente. Embora com preferências eleitorais diferentes, os pititas são uma identidade social e política cujo papel na política boliviana foi decisivo nos últimos doze meses. Esta comunidade começou com pequenos protestos antes do referendo organizado por Morales em 2016 para tentar levantar a proibição constitucional de uma terceira reeleição. “Naquela época nos chamavam de ‘os quatro gatos’”, recorda Claudia Bravo, ativista e política que desde então é contra a reeleição. O movimento se tornou muito mais amplo —mas ainda sem envolver grandes setores sociais— quando Morales ignorou os resultados desse referendo e viabilizou sua candidatura por meio de uma consulta ao Tribunal Constitucional. E se tornou maciço depois que Carlos Mesa, que acreditava ter obtido votos suficientes para obrigar Morales a ir a um segundo turno, denunciou a realização de uma “fraude monumental” nas eleições do ano passado. Morales menosprezou inicialmente essa nova oposição que buscava enfrentá-lo, pela primeira vez, em um terreno em que se sentia invencível, o da mobilização social. Assim a batizou involuntariamente, ao zombar de sua técnica de bloquear as ruas com pititas, cordas finas. A ironia de Morales foi assumida como “nome de honra” pelos manifestantes e, com sua derrota, fez história. A maior parte dos meios de comunicação locais chamou a derrubada do presidente indígena de “revolução das pititas”. Assim, abriu uma aguda polêmica com a esquerda nacional e latino-americana, que interpretou o ocorrido como um golpe de Estado, pois na fase decisiva do confronto com Morales, os pititas receberam ajuda da polícia, que se amotinou e deixou de obedecer ao Governo, e das Forças Armadas, que “sugeriram” ao presidente que renunciasse. Desde então foram publicados vários livros de crônica e defesa do movimento que eclodiu depois das denúncias de fraude. O último deles se intitula 21 Dias de Resistência. A queda de Evo Morales e foi escrito por Robert Brockmann, um renomado historiador que se considera pitita. “Os pititas, uma coletividade nacional tão grande quanto diversa e dispersa, são, somos, possuidores de uma genuína vitória política nas ruas, produto de uma mobilização espontânea, resultado de um ideal coletivo de democracia que estava sendo violado e sequestrado. Os pititas conseguiram, mesmo que a deusa Fortuna tivesse mediado, o que os venezuelanos ou os sírios não conseguiram, nem com enorme sacrifício de vidas humanas”, escreveu Brockmann em um artigo intitulado Yo, pitita. Muitos sociólogos discordam da definição desse grupo social como “uma coletividade nacional tão grande quanto diversa e dispersa”. Embora em seu melhor momento tenham incluído muitos setores populares descontentes com Morales, acima de tudo é um movimento das classes médias. Tanto daquela que na Bolívia leva o nome de “tradicional”, formada por pessoas que ganham entre 10 e 50 dólares por dia (55,70 e 278,48 reais, aproximadamente), quanto pelas camadas superiores da classe média “vulnerável”, cujos membros ganham entre 7 e 10 dólares por dia. Ambos os grupos sociais não se consideram indígenas. Os estudos mostram uma estreita correlação entre a identidade “não indígena” e a oposição ao MAS. Nos bairros com mais imigrantes rurais da cidade de El Alto, por exemplo, até 90% da população vota no partido de Evo Morales. Nos bairros mais acomodados de La Paz, onde não vivem indígenas, ocorre exatamente o contrário. Fonte: El País

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