Folha Oeste




Os dois trilhões de dólares de Biden para promover milhões de empregos e sair da crise da pandemi

01/04/2021

Segundo megaplano apresentado pelo presidente dos EUA visa a reforçar a supremacia do país em relação a rivais como a China , e seria financiado com aumento de imposto sobre empresas. O primeiro grande gesto do presidente Joe Biden em seu mandato foi um plano de choque para superar a pandemia, um pacote de estímulos de 1,9 trilhão de dólares já aprovado pelo Congresso. O segundo é um programa de reconstrução e modernização de infraestruturas, apresentado nesta quarta-feira em Pittsburgh, que prevê investimentos de dois trilhões de dólares (valor ligeiramente maior que o PIB brasileiro) com o objetivo de gerar milhões de empregos e reduzir déficits em serviços essenciais como estradas, pontes, aeroportos e redes elétricas, muitos dos quais datam dos anos 1950, além de modernizar o país para enfrentar melhor a mudança climática. Mas a ambição maior é reforçar a supremacia dos EUA perante a concorrência de rivais como a China. O chamado Plano de Emprego Norte-Americano ―“O maior plano de investimentos desde a II Guerra Mundial, que gerará milhões de empregos bem remunerados; o plano de uma geração”, como disse Biden― tem pela frente um caminho tão longo quanto tortuoso, política e legislativamente falando. As dúvidas sobre a viabilidade do financiamento, que a Casa Branca espera obter aumentando de 21% para 28% o imposto sobre empresas, e a oposição dos republicanos contra o intervencionismo estatal prenunciam uma tramitação inclemente. Alguns democratas também formulam críticas ao plano, por considerá-lo insuficiente, enquanto os grandes empresários entendem que dificultará a recuperação pós-pandemia, devido à sobrecarga fiscal. “Não podemos esperar” para modernizar as infraestruturas, respondeu Biden em Pittsburgh. “Não tenho nada contra os milionários”, acrescentou, em alusão à fonte de financiamento prevista. A iniciativa pretende destinar 620 bilhões de dólares (3,5 trilhões de reais) ao setor de transportes para modernizar mais de 32.000 quilômetros de rodovias e reparar 10.000 pontes em todo o país. Segundo a associação de engenheiros civis, 43% das estradas norte-americanas estão em más condições, e 42% das 617.000 pontes têm pelo menos 50 anos, sendo que 7,5% delas são estruturalmente deficientes. O país mais rico do mundo cai para a 13ª posição quando se leva em conta a qualidade de suas infraestruturas, como consequência da queda de 40% do investimento público desde a década de 1960. “O Plano de Emprego Norte-Americano investirá no país de uma forma inédita desde que construímos as rodovias interestaduais e ganhamos a corrida espacial”, afirma a Casa Branca. Além da rede viária, prevê modernizar a rede elétrica, o fornecimento de água e o acesso universal à banda larga de internet; também se dispõe a reconstruir dois milhões de moradias, escolas e creches; potencializar a economia dos cuidados, com a criação de empregos mais bem pagos que nivelem desigualdades de classe e de raça; revitalizar a indústria, garantir o suprimento de componentes essenciais e investir mais em pesquisa e desenvolvimento. Um capítulo destacado da iniciativa é a chamada “revolução do carro elétrico”, que prevê, entre outras coisas, substituir 20% dos ônibus de transporte escolar por veículos elétricos, o que também provocou uma avalanche de críticas entre os grandes do setor automotivo. O claro respaldo de Biden à filiação sindical dos trabalhadores também aparece de forma evidente nesse plano, justamente às vésperas de ser anunciado o resultado da votação pioneira sobre esse assunto entre 6.000 trabalhadores de um centro da Amazon. O ambicioso discurso desta quarta-feira é o ponto de partida para uma batalha parlamentar que deverá ser tão áspera como incerta, pondo à prova a capacidade de negociação do presidente democrata. O intervencionismo do Estado na economia, esse suposto gasto público a rodo que denunciam seus detratores, e o aumento do imposto de sociedades, eliminando a alíquota de 21% adotada na grande reforma fiscal de Donald Trump em 2017, mantêm os republicanos e a classe empresarial em pé de guerra há várias semanas. A Casa Branca promete que, mesmo depois do hipotético aumento, a tributação se manterá em seu menor nível desde a II Guerra Mundial, com exceção do parêntese da era Trump. Por mais desmedidas que pareçam, as propostas de Biden estão longe de constituir balões de ensaio ou amostras de pensamento ilusório. Em uma resposta na sua primeira entrevista coletiva, na quinta-feira passada, o presidente repetiu três vezes seu desejo de “mudar o paradigma” e de promover sua pauta com ou sem apoio republicano. A prova de sua determinação será este plano de infraestruturas, muito mais radical e transformador que o Plano de Resgate Norte-Americano já aprovado. Converter a economia dos EUA em um sistema funcional mais equitativo, sustentável e competitivo, em especial com relação à China e diante dos desafios da mudança climática ―que expõe as vergonhas do país com cada novo furacão ou onda de frio, como a recente do Texas―, é o exemplo mais evidente de outro dos lemas de seu mandato: a ambição. Se a ambição guiar sua resposta à crise do coronavírus, com um plano trilionário que mereceu o qualificativo de histórico ―sua dotação equivale a quase 40% do orçamento do Governo federal, ao redor de 9% do PIB nacional―, os adjetivos se tornam insuficientes para emoldurar o novo projeto, que pretende superar desigualdades estruturais arraigadas até a medula, além de gerar 10 milhões de empregos verdes e revitalizar a indústria. Diferentemente do resgate pandêmico, uma grande injeção de gasto público, a futura reconstrução implicará ―se for aprovada no Congresso― uma revolução fiscal a ser bancada principalmente por quem tem mais. É outra mudança de paradigma, como vem exigindo a ala mais progressista dos democratas ―que, por exemplo, apresentou na Assembleia Legislativa de Nova York um projeto de lei para sobretaxar os bilionários do Estado. Na cabeça de Biden estão os chamados trabalhadores de colarinho azul, os operários ―categoria mais afetada pelo paulatino declínio econômico, pela fuga de investimentos e, finalmente, pela pandemia; negros e latinos em sua maioria, mas também brancos com baixa qualificação, “os que trabalham duro e pagam impostos e servem ao seu país”, como os definiu no começo do seu discurso―, mas também desafios globais. A China desbancará os Estados Unidos como a maior economia mundial em 2028, cinco anos antes do previsto anteriormente, segundo o Centro de Pesquisas Econômicas e Empresariais (CEBR, na sigla em inglês), graças ao seu hábil manejo da pandemia. A China foi a única grande economia mundial a ter evitado a recessão em 2020, superando os EUA como principal destino do investimento estrangeiro direto nesse ano. A dependência estratégica dos EUA em relação à China ficou clara durante a pandemia, ou na interrupção da cadeia de montagem em fábricas de automóveis devido à escassez de componentes essenciais, também chineses. O macroplano de infraestrutura e emprego busca dar uma resposta a todas essas carências e fragilidades. “Ele nos permitirá ganhar a competição contra a China”, disse Biden no seu discurso. Quem via em Biden um político carente de ideias fortes terá de mudar de opinião, sugere a Casa Branca. “O presidente acha que seu papel é oferecer uma perspectiva audaz sobre como podemos investir em nosso país, nossas comunidades, nossos trabalhadores. Ele quer mostrar claramente que tem um plano e que está aberto à discussão”, disse nesta terça-feira sua porta-voz, Jen Psaki. Um alto-funcionário da Casa Branca, no entanto, ressaltou que o presidente “não assumirá compromissos pela urgência em agir”. O secretário de Transportes, Pete Buttigieg, que estará na linha de frente do plano, considera possível um acordo para aprová-lo. “Temos uma oportunidade extraordinária de obter apoio bipartidário para pensar muito bem e dar provas de audácia”, afirmou. Fonte: El País

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